Examinando o P/L de uma ação

A análise do Preço por Lucro (P/L) de uma ação pode dizer muito sobre a probabilidade de o ativo vir a ser lucrativo ou não. Um P/L muito baixo indica que o preço da ação está bastante baixo; e um P/L alto indica que o preço da ação está alto. Há quem pense o contrário, e diga que um P/L alto normalmente significa que há uma expectativa geral de que a empresa terá um futuro magnífico – e por isso as pessoas querem pagar mais caro para ter uma fatia desse futuro. E um P/L baixo indicaria a expectativa de um futuro péssimo para a empresa, e as pessoas estariam vendendo a ação a um baixo preço com medo de que os lucros se tornem ainda piores no futuro.

Mas quem tem a razão? Para discutir isso, é importante entender o que é o índice P/L.

E isso é muito fácil: o P é o preço da ação (a cotação da ação no mercado) e o L é o lucro da empresa por ação. Ou seja, se uma empresa tem lucro de R$ 1.000.000,00 e tem 1.000.000 de ações, isso significa que o lucro por ação (LPA) é de R$ 1,00. Se cada uma de suas ações está cotada a R$ 10,00, o P/L é de 10, porque 10,00 (a cotação da ação) dividido por 1,00 (o lucro por ação) é igual a 10. Fácil, não?

Mas o P/L pode dizer muito sobre a qualidade de um investimento. Em primeiro lugar, ele informa a rentabilidade inicial do investimento, ou seja, quanto lucro ele retorna para o investidor imediatamente. Para ver isso, é só fazer a conta inversa: ao invés de calcular o P/L, calcule o L/P. Voltando à empresa do exemplo, ela tem uma rentabilidade de 10%, porque seu lucro dividido pela cotação (1/10) é igual a 0,10 (dez por cento). Uma empresa cotada a R$ 5,00 com um lucro por ação de R$ 2,50 tem um P/L = 2 e um L/P = 0,5 (ou 50%).

Essa matemática parece fazer pouco sentido para você? Tudo bem, vamos simplificar um pouco mais. Imagine que você vai comprar uma empresa inteira. Você acha razoável pagar o equivalente ao lucro anual dela para adquiri-la? Por exemplo: o que você acha de comprar uma empresa que lucrou R$ 50.000.000,00 no último ano pelos mesmos R$ 50.000.000,00? Não faz sentido, porque o proprietário tem uma grande probabilidade de ter aquele valor simplesmente mantendo a empresa sob sua propriedade, e dificilmente o dinheiro que receberia pela venda da companhia renderia aquele lucro no ano seguinte, ou nos próximos anos. A empresa deve valer mais do que lucra, concorda? Afinal, uma empresa não é composta apenas por seus lucros: ela tem todo um valor patrimonial também – máquinas, prédios, patentes, sua marca. Tudo isso está embutido no preço da ação da empresa.

Outro fator que afeta o preço de uma ação é a expectativa de lucros nos próximos anos. Digamos que uma empresa tenha um lucro por ação (LPA) de R$ 0,50 e você tenha a expectativa de que ela dobre seu lucro no próximo ano, passando para R$ 1,00. Dificilmente essa ação seria cotada a R$ 1,00 atualmente, porque esse valor não refletiria a expectativa de aumento dos lucros da empresa no ano que vem. Afinal, a sua rentabilidade daqui a um ano seria de 100%. A ação estaria cotada a um preço equivalente a seu lucro anual.

É por esses fatores que as ações de uma empresa dificilmente são cotadas a um índice P/L muito baixo. Quando isso acontece, o mercado espera que a empresa terá um futuro bastante sombrio – e se os lucros caírem efetivamente, o índice P/L vai subir bastante. Vamos imaginar uma ação que hoje esteja cotada a um índice P/L = 10 e sua ação esteja cotada a R$ 20,00 – ou seja, o lucro por ação é de R$ 2,00. Se o seu lucro cair no ano que vem para R$ 0,5 por ação, e a cotação permanecer a mesma, seu índice P/L subirá para 40. E sua rentabilidade inicial, que era de 10% (1/10), despencaria para pífios 2,5% (1/40).

No mundo ideal dos economistas, o conjunto dos investidores saberia definir os preços das ações de acordo com as expectativas. Ações de boas empresas seriam cotadas a preços maiores (com índices P/L maiores), e ações de empresas piores seriam cotadas a preços menores (P/L menores). Se isso realmente acontecesse, haveria poucas oportunidades para os investidores encontrarem boas pechinchas, porque as únicas ações vendidas a preços atrativos seriam as de empresas ruins. Não existe almoço de graça, dizem eles…

De graça, talvez não. Mas há bons almoços a preços bastante módicos, e verdadeiras gororobas vendidas como se fossem verdadeiras iguarias. E o segredo para separar uma coisa da outra é analisar corretamente o índice P/L.

Vamos ver alguns exemplos (os dados são extraídos da plataforma Valoriza Online).

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As Lojas Americanas (LAME4) estão sendo negociadas hoje a um preço de R$ 14,14, aproximadamente, com um índice P/L de 69,30. Em outras palavras, sua rentabilidade inicial é de 1,4%. Seu lucro por ação é de R$ 0,204.  A esses níveis, o investidor deveria esperar que a perspectiva de rentabilidade da empresa fosse aumentar bastante nos próximos anos. Mas será que o passado da empresa justifica essa expectativa? Em 2002, o Lucro por Ação (LPA) da companhia era de R$ 0,14, e em 2008 seu LPA foi de R$ 0,15. Em 6 anos, seu lucro aumentou parcos 7%. Mesmo que consideremos o LPA atual (R$ 0,204), isso equivaleria a um aumento de 45% (uns 6% ao ano, bem abaixo da taxa Selic hoje). Um péssimo crescimento nos últimos 6 anos, mas mesmo assim a cotação da ação cresceu incríveis 1972%. Seu P/L subiu de 5.5 (ou seja, o preço da ação era 5 vezes superior ao lucro por ação) para incríveis 69.3. Com esse histórico de crescimento, o patamar atual da ação não é justificável: o risco de uma queda abrupta é extremamente alto!

Para que o leitor tenha uma idéia, se analisássemos uma ação como um investimento em renda fixa, as ações das Lojas Americanas estariam pagando hoje uma rentabilidade de 1,4%, muito abaixo da taxa Selic, de 8,75%! Mas o mercado “eficiente” continua pagando os preços absurdos da ação… para que isso se justifique, o futuro da empresa terá que ser muito melhor do que o seu passado. Mas esse futuro não tem se realizado: a receita líquida de vendas aumentou muito, mas seu lucro permaneceu nos mesmos patamares de 2002, indicando muita ineficiência.

Vamos ver um outro exemplo, a Gerdau (GGBR4). A empresa também está negociada, hoje, a um P/L altíssimo, de 69,64, cotada a R$ 27,60. Mas a companhia sofreu muito mais em seu lucro do que as Lojas Americanas com a crise. Se recuperar os patamares de 2007, quando teve um LPA de 1,90, seu índice P/L cairá para 14, bastante aceitável. E tudo indica que a empresa conseguirá se recuperar bem nos próximos anos: no último trimestre, seu lucro já foi bastante próximo aos de 2007. Além disso, seu lucro cresceu fantasticamente entre 2002 e 2008, antes da crise: 528%, uma média de 35% ao ano nos últimos 6 anos. Bom, não é? Em outras palavras, o índice P/L alto está justificado pela queda que a empresa sofreu em seus lucros em 2009, por conta da crise do subprime. A expectativa de que ela se recupere nos próximos anos e continue a ser lucrativa para seus acionistas é bastante justificada.

O mercado também erra na atribuição de preços baixíssimos para boas empresas. A GGBR4 chegou a ser negociada a R$ 10,00 no meio da crise, com um P/L de 4 (rentabilidade inicial de 25%!),  um preço que hoje podemos ver que era inconcebível para uma empresa como ela. E não só ela: muitas outras empresas sólidas, com capital suficiente para superar a crise, foram vendidas a preço de banana.

Outra empresa que o mercado subavaliou na última crise foi a CSN (CSNA3). Seu lucro teve um crescimento de 1.812% entre 2001 e 2008. As vendas da empresa também cresceram muito no período: sua receita líquida de vendas subiu cerca 250% no período. Ou seja, nesse período de 6 anos, a empresa se mostrou uma fantástica máquina de crescimento de lucros. Em 2008, suas ações chegaram a ser cotadas a R$ 18,58, c
om um P/L de 2,42. Imagine só: você poderia comprar uma empresa que gerou de lucro, por ação, R$ 7,65, por pouco mais que o dobro do lucro DE UM ANO! É como comprar um apartamento que rendesse de aluguel algo como 50% do valor do imóvel em um único ano. Em dois anos, os aluguéis pagos permitiriam a compra de um novo apartamento igual a ele. Bom demais pra ser verdade, não é? Mas FOI verdade em 2008, por causa da miopia do mercado. Não é à toa que os preços subiram vertiginosamente desde o ponto mais baixo na crise: a ação está cotada a R$ 57,20, com um índice P/L de 7.46. E ainda não está caro, pois indica uma rentabilidade (L/P) de aproximados 13%, bem acima da taxa Selic. E hoje, a empresa já está voltando a ter lucros comparáveis aos de 2007, e não duvido que logo se recuperará integralmente. Se isso acontecer, o P/L atual voltará a despencar, e haveria boas razões para impulsionar os preços da ação para cima.

Isso tudo mostra como o índice P/L, sozinho, não diz nada. O investidor precisa examinar o que pode explicá-lo. Será que o mercado não está atribuindo preços absurdamente altos ou baixos para o ativo? Talvez você consiga um almoço bem barato…

PS: as análises realizadas não significam recomendação de compra ou venda para nenhuma dessas empresas. Não sou analista certificado pela CVM, mas apenas um pequeno investidor que deseja compartilhar um pouco do que aprendeu no mercado.

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Fábio Portela é investidor desde 2006 e disponibiliza neste site seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, seja com sua experiência, seja por meio das leituras que fez ao longo dos anos. O autor é mestre em Direito Constitucional e em Filosofia pela UnB, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional na mesma instituição.

  • Luis Pereira

    Felicitações Fábio,Você sempre nos surpreendendo com seus textos.Confesso que o P/L ainda estava sendo muito importante em minhas análises, agora vou ter mais cuidado.

  • Diogo

    Excelente texto.Parabéns!

    • http://www.mentalidade.com/proteja-seu-e-mail-com-e-mail-temporario Darin Obermann

      Eu tenho um blog que se parece bastante com esse modelo.

  • http://chfzeukjpipy.com/ enkfznnfygv
  • ricardo

    muito bom

  • http://longoprazo.wordpress.com/ Fabrício Godo

    Primeiramente quero parabenizar pelo excelente artigo.
    Quanto a "plataforma Valoriza Online" não consegui acessar, qual o endereço?
    Obrigado.

  • Alexandrte

    Qdo leio seus textos , no começo me da preguiça,pois é mto grande, mas vale a pena ler!!!rs

    parabens!

    • Fabio Portela

      Obrigado pelo elogio! Ler é importante para investir bem!

    • luiz frank

      tambem acho os paragrafosmuito grandes.deveria fazer um texto mais objetivo, tipo texto jornalistico informativo.abracos!

      • Fábio Almeida

        Rapaz, eu sou muito feliz por não ter aprendido a escrever com jornalistas. ;)

        • Max

          Puxa vida, Portela. “Eu sou muito feliz por não ter aprendido a escrever com jornalistas.” Vc me surpreendeu negativamente agora. Numa área como essa que vc aborda concisão jornalística é importante. Não podemos perder a precisão no texto. Mas vc é jovem e aprenderá.

          • Fábio Almeida

            Rapaz, o que eu já vi de jornalista escrevendo errado por aí…

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