Os riscos do crédito consignado em folha

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Você já viu alguma propaganda de crédito consignado em folha? Normalmente elas começam assim: “você precisa comprar um carro novo, uma roupa nova ou necessita de um ‘dinheirinho rápido’ para quitar as dívidas? Que tal recorrer a uma forma de crédito baratinha, baratinha, com prazos razoáveis e com tudo descontadinho na sua folha de pagamento?” Parece fantástico, não é? Essas propagandas se alastram no rádio, na televisão, nos jornais e em revistas. Mas não se engane: como praticamente toda forma de empréstimo utilizada para financiar o consumo, é muito fácil alguém se enrolar financeiramente achando que está fazendo um grande negócio ao tomar um empréstimo consignado.

O que é o crédito consignado em folha?

Mas você já parou pra se perguntar o que é o crédito consignado?

Basicamente, é uma modalidade de empréstimo cujo pagamento é feito mediante o desconto das prestações, com os juros devidos, diretamente na folha de pagamento. Em outras palavras, o trabalhador recebe seu salário com o desconto das prestações. Normalmente, os juros são mais baixos, já que o pagamento é praticamente certo para o credor. O empregado não precisa pagar boleto bancário, nem tampouco se programar para efetuar os pagamentos, e o credor não precisa contratar ninguém para buscar o pagamento. Essa situação, que leva a uma certeza maior do pagamento da dívida, resulta na redução das taxas de juros.

Riscos do crédito consignado

Parece um bom negócio, não é? Mas não é: na verdade, o crédito consignado pode ser uma verdadeira bomba relógio para o orçamento de quem não sabe administrar suas finanças.

Na maioria dos casos, o crédito consignado é limitado a, no máximo, 30% da renda. Mas já existem empresas que concedem crédito consignado sem estabelecer qualquer limite de margem, levando muitas pessoas ao descontrole de suas finanças. Imagine a situação de quem tem um salário de R$ 2.000,00 e só recebe R$ 1.400, uma vez que 30% de sua renda já está destinada ao pagamento do empréstimo? E eu nem contei os descontos legais com Imposto de Renda e INSS nos cálculos!

Pior ainda é a situação de quem utiliza o crédito consignado sem margem de consignação. Em alguns casos, a instituição financeira permite que 50% ou 60% da renda do contratante seja comprometida com empréstimos consignados. No desespero, e por falta de educação financeira, muitas pessoas recorrem a esse mecanismo para pagar as contas do mês, esquecendo que na verdade só estão adiando o problema, uma vez que, no mês seguinte, também faltará dinheiro e, pior, ainda será necessário pagar a prestação do empréstimo.

É vergonhoso que o próprio governo estimule esse tipo de empréstimo, que apenas desestimula a educação financeira e favorece o endividamento das famílias. Em vários órgãos públicos, há cartazes anunciando crédito consignado em folha, e destacando os prazos longos e a possiblidade de se endividar sem se preocupar com o pagamento das parcelas (afinal, é tudo descontado em folha!). E o pior, em alguns órgãos, os próprios servidores – novamente, por falta de educação financeira – pressionam suas chefias para afrouxar as regras, aumentando os limites de consignação e os prazos de pagamento.

Mas pode piorar: aposentados e pensionistas, justamente algumas das pessoas com maiores dificuldades financeiras, também podem, desde 2004, recorrer ao empréstimo consignado em folha. E como não poderia deixar de ser, o governo formulou um programa para estimular o turismo na terceira idade. Aposentados e pensionistas poderiam viajar pelo país pagando a viagem com dinheiro obtido por meio de um empréstimo consignado. Se você não acredita, veja a propaganda do programa, lançado em 2007:

Outro risco do crédito consignado diz respeito à taxa de juros. Embora, na média, os juros cobrados por essa modalidade de empréstimo sejam menores do que os juros do cartão de crédito e do cheque especial, as taxas ainda são bastante elevadas. Em alguns casos, chegam a 2% ao mês, ou incríveis 27% ao ano! Com prazos que chegam a 90 meses, quem recorrer a um empréstimo como esse pagaria cerca de 490% acima do valor emprestado – e pagaria quase 5 vezes mais do que o valor emprestado.

Conclusões: usar ou não o crédito consignado em folha?

O crédito, por si só, não é ruim. Existem dívidas boas e dívidas ruins. Mas é importante verificar se recorrer ao crédito consignado é realmente necessário, ou se há alternativas mais baratas. Se você pretende comprar um carro, por exemplo, e verifica que os juros do crédito consignado são inferiores aos juros do financiamento do automóvel, pode valer a pena recorrer a essa modalidade de crédito. Mas, como já vimos, comprar à vista pode ser uma alternativa melhor na maior parte dos casos.

Mas em nenhuma hipótese recorra ao crédito consignado para cobrir rombos no orçamento. Tente negociar as dívidas, se eduque financeiramente e tente viver com seu salário. Esta é a maneira mais sadia de reequilibrar as contas e começar a construir, efetivamente, um futuro financeiro – utilize o crédito consignado apenas nos casos estritamente necessários!

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Fábio Portela é investidor desde 2006 e disponibiliza neste site seus conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, seja com sua experiência, seja por meio das leituras que fez ao longo dos anos. O autor é mestre em Direito Constitucional e em Filosofia pela UnB, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional na mesma instituição.

  • alien1

    O governo vai ganhar com o imposto pago pela financeira, vai ganhar com o imposto pago pela companhia aérea, com o imposto pago pelo hotel…..

  • http://www.ricoporacaso.com Rafael

    Um outro grande problema são as facilidades que as financeiras tem em liberar estes empréstimos, o que facilita em muito as fraudes. Muitos aposentados assinam documentos sem saber o que estão assinando e acabam passando por sérias dificuldades financeiras – em alguns casos sem nem ter pedido empréstimo.
    Um abraço a todos – Blog Rico por Acaso – http://www.ricoporacaso.com

  • alien1

    É a casa da mãe Joana.

    Ainda existe o fato de muitos aposentados serem explorados pelos netos e filhos, muitas pessoas não trabalham por anos e anos e apenas fingem cuidar dos avós….

    O idoso nao reclama por ter medo da solidão e os espertinhos ganham uma grana mole.

  • Flavio

    Uma vez, ano passado ou retrasado, vi uma manchete no Jornal de Brasília que dizia que 50% dos servidores federais estão endividados. Hoje lamento não ter comprado aquela edição. Já procurei a matéria no site do jornal, mas achei.

    Não sei se ele se referia a dívidas no crédito consignado, se incluía militares, se eram só servidores do executivo, se eram só os no DF, de onde veio a estatística, etc.
    Mas não duvido que os números sejam mesmo por aí.

  • Alcimar

    O pior é que isso está idiscrimininado, conheci uma pessoa que ganha salario em prefeitura de R$500,00 e tem uma divida em consignado de R$700,00, O cara agora ta só aumentando a cada mês o cheque especial…

  • http://www.emprestimoconsignado.co Joao

    Ótimo Artigo Fábio!

    Esse Artigo nos faz repensar se realmente é o momento para fazer um empréstimo consignado ou não.

    Você também falou de educação financeira, que na minha opinião, deveria ser algo que se aprende na escola, é muito mais relevante e útil do que algumas ciências.

    Abraços!